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Por mais abertura nas escolas

Por mais abertura nas escolas



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Cinthia Rodrigues

– Ah, os pais não querem nem saber do que seus filhos fazem na escola
– Ah, ninguém se importa com a situação dos professores
– Ah, não! Lá vem mais uma pessoa querendo se meter na escola!
Por incrível que pareça, as três frases acima são da mesma pessoa. Com pequenas variações, muitos professores insistem nelas sem perceber que, ora levantam uma barreira quase intransponível, ora reclamam que estão sozinhos em uma tarefa monumental. Não querem que economistas, empresários, jornalistas, psicólogos, artistas e outros “falem do que não vivem”, mas lamentam a falta de justiça financeira, investimentos, reportagens e compreensão.
O fenômeno é comum em vários campos da sociedade: ergue-se muros de tijolos ou mecanismos de proteção que impeçam a entrada de desautorizados sem perceber que as pessoas do lado de dentro é que acabam limitadas a um único perímetro, a uma vista sem horizonte ou a círculos restritos de consulta e cooperação. Tudo em nome de uma segurança questionável.
Lembro da primeira vez que vi uma cidade sem muros. Eu cresci em uma rua de terra em Mogi das Cruzes e a casa da minha família ficava em frente a uma fazenda, mas tinha um murinho. Mesmo cidades menores da região ou as do litoral tinham sempre o terreno delimitado por tijolos ou ao menos uma cerca – ainda que toda criança pulasse sem cerimônia para buscar uma bola lançada a taco. Eu tinha naturalizado as paredes cada vez mais altas quando visitei Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, em 2003, e percorri ruas inteiras sem muros.
Era uma excursão do Curso Estado de Jornalismo, que eu fazia como recém-formada, e aquela falta de divisão entre os quintais e as calçadas ou a grama de uma casa e outra logo virou assunto no nosso ônibus de jovens curiosos de vários estados do país. Meus colegas mais viajados explicaram que era resultado da colonização europeia e refletimos sobre a falta de segurança que nos levava a esconder nossas casas no Brasil.
Tempos depois, na cobertura de alguma das tantas barbáries sobre as quais jornalistas costumam escrever, um especialista em segurança me explicou que muros e portões extremamente fechados tornavam uma casa alvo fácil. Depois de entrar, os criminosos podiam se alongar pois ninguém os veria mais. A recomendação para casos assim era a instalação de câmeras de vídeo para que, na falta de vizinhos e transeuntes, alguém pago pudesse perceber movimentações estranhas. Pois é.
Logo passei a me interessar mais profundamente por educação e reparar nos muros – e principalmente na falta deles – nas instituições de ensino. Em Nova York, da rua é possível ver a criançada correndo no intervalo, em Berlim os alunos mexem com os transeuntes pelas janelas e em Havana até um turista pode entrar até certo ponto do corredor e apreciar os trabalhos dos estudantes.

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Escola estadual Fernão Dias, sem muro na fachada
O que faz da Cidade Universitária em São Paulo, um lugar tão agradável? Não tem nada demais, mas tem de menos os muros entre os prédios. E as escolas públicas paulistanas mais bonitas como as estaduais Fernão Dias e Rodrigues Alves ou municipal Villa Lobos? Por dentro há outras tão ou mais equipadas, mas estas são as que podemos admirar de passagem. E as que são decadentes? O que aconteceria se pudéssemos ver por cima do muro ou da barreira invisível imposta a quem não faz parte à escola?
No primeiro centro de educação infantil municipal dos meus filhos havia um muro com colunas diagonais vazadas. Não dava para ver exatamente o que estava acontecendo, mas para perceber o movimento e o colorido. Notei a diferença quando nos mudamos para a atual unidade. Como já disse, a instituição é excelente. Por dentro, os corredores estão cheios de lindas exposições, mas um muro estéril esconde absolutamente tudo de quem passa na rua. A diretora já me explicou que, por causa do grande movimento de carros, qualquer abertura prejudica a acústica, mas concordamos que é preciso criar uma abertura ainda que não seja no concreto.
Em 2013, fui conhecer uma creche noturna em Paraisópolis para uma reportagem. Saí de casa depois de ter colocado meus bebês de 10 meses para dormir e percorri as ruas de vários bairros onde só havia outros carros pensando em como era estranha a sensação de ir a uma escola enquanto todos dormiam. Só quando cheguei ao bairro pobre cheio de gente nas calçadas vivendo em comunidade me toquei que ainda eram 9h da noite. Adultos não dormem tão cedo, apenas estavam invisíveis para mim.
Como vamos resolver juntos os problemas da educação, que são de toda a sociedade, mantendo invisibilidade? Queremos ou não a participação e o interesse das pessoas em geral? É só durante uma greve ou uma festa que outros pessoas deveriam olhar para dentro das escolas? Sei que é difícil conversar com alguém “de fora”, que não conhece o cotidiano e não sabe como realmente funciona, mas quem além dos educadores poderia os informar sobre a realidade?
Não posso responder por todos os demais profissionais, mas nós jornalistas também recebemos sugestões sem pé nem cabeça ou pedidos em tom de ordem que desanimam. Mas quanto mais ouvimos, mais sugestões interessantes recebemos também. Se não servem exatamente como chegaram ajudam a construir uma nova ideia. A escola pública e a cidade ganhariam com menos barreiras que impeçam ver a beleza da educação que ocorre lá dentro ou a realidade difícil que não pode ser escondida.
***
Cinthia se tornou jornalista em 2002 e aos poucos abraçou a educação como sua pauta permanente. Em 2013, matriculou os filhos em um centro de educação infantil público. Desde então, faz o que pode para que esta seja a melhor escola para eles. Escreve no blog Escola Pública.
Foto de Geoff Llerena.
Fonte: http://blog.cinese.me/post/125860943962/por-mais-abertura-nas-escolas

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